Discussão: O Linux já preparado para o ambiente desktop?
Este post foi publicado devido a um comentário do Sr. Fernando Lincoln sobre a situação atual dos sistemas operacionais baseados em Linux em ambiente Desktop, feito no artigo em que menciono as diferenças entre as distribuições Linux.
Por ser um assunto amplo e para segmentar os comentários dos visitantes, resolvi criar um novo post para tratarmos especificamente dessa discussão. Recomendo a leitura do comentário, pois em algumas partes deste post ele será citado. O Sr. Fernando Lincoln começou a discussão e agora eu irei dar continuidade, e aguardo os comentários!
Na minha opinião, o Linux “para as massas” tem como requisito básico ser fácil de usar. Isso, obviamente traz um leque grande de requerimentos, como compatibilidade de hardware. Como foi mencionado no comentário, a Microsoft realmente leva muita vantagem nesse quesito, devido ao fato de que muitos fabricantes só desenvolvem seus drivers para os SOs dela.
No caso, foi citado uma placa de vídeo da ATI, que é reconhecidamente uma empresa que tem drivers fracos para Linux, não trazendo todas as funcionalidades nem desempenho alcançados no Windows. O problema não é a qualidade do hardware, mas a inclinação que a ATI (não) tem de suportar o Linux.
Por exemplo, ao comprar uma placa mãe ou placa de vídeo muito nova, é altamente provável que os sistemas Linux não as suportem ainda, precisando pesquisar bastante ou esperar algum tempo até que a comunidade resolva o problema. Esse é o modelo open source.
Apesar de todos estes problemas com o hardware, devo lembrar que o Linux é o sistema mais compatível “out of the box” atualmente. Em desktops, não é necessário ficar instalando sempre som, vídeo, rede, câmeras, storage devices, etc, como no Windows.
Podemos reavaliar a situação considerando o ambiente 100% configurado e funcionando. Particularmente já fiz vários testes com pessoas que eram usuários comuns de computadores e notadamente de Windows onde fizemos uma migração “forçada” com muito sucesso. A maioria dos que testaram o Linux não gostariam de voltar para o Windows, se pudessem, principalmente devido à estabilidade do Linux e velocidade.
Como conseguir um sistema assim então? Muitos fabricantes de computadores e notebooks estão trazendo o Linux como sistema operacional padrão, porém, até pouco tempo atrás, isso só serviu para afujentar mais ainda os usuários. Vi um caso bem próximo: um amigo aqui da Engenharia de Teleinformática comprou um notebook Acer que veio com uma distribuição desconhecida instalada e que ao iniciar o computador, nem o servidor gráfico inicializava. Isso é ridículo. Estou falando de iniciativas sérias.
Há muito pouco tempo, a Dell lançou uma linha de notebooks, e outra de desktops que vêm com o Ubuntu 100% configurado por padrão e com suporte da Canonical, que é a empresa que o desenvolve. Esse é um exemplo de versão OEM, que iremos ver se vai funcionar. Só o tempo vai dizer, mas creio que os resultados serão muito bons.
Chegamos então a um ambiente onde as coisas iriam funcionar, mas faltam os usuários que irão instalar o sistema do zero e que não querem ou podem gastar uma ou duas semanas para deixá-lo ideal para uso.
Para resultados mais imediatos neste ambiente, recomendo uma distribuição com foco em Desktop, como o próprio Ubuntu, ou algo mais profissional e bem acabado, como o OpenSuse ou o Suse Linux Enterprise Desktop, que conta com um excelente centro de controle de todo o computador, o Yast, que é amigável e muito fácil de usar. No Brasil temos o Kurumin, onde o desenvolvedor Carlos Morimoto procura deixar o sistema mais compatível com hardware existente na realidade brasileira, e é com certeza uma boa alternativa.
Vamos considerar agora que o ambiente já está funcionando mas o usuário quer instalar algo um pouco mais complicado. Provavelmente ele vai precisar de ajuda, pesquisar e de conhecimento adicional. É aqui onde entram as formas de discussão descentralizadas, como os fóruns e listas de e-mail, que refletem a própria forma do movimento open source. Não há centralização, e é essa sua vantagem.
Gostaria de deixar isso claro aqui. Já ouvi muita gente dizendo que a desvantagem do software livre é ser descentralizado, ter muitos projetos que fazem a mesma coisa, esforços pulverizados ao invés de concentrados. A maior parte dessas pessoas até trabalham com software, porém ainda não entenderam a idéia principal. Essa é justamente a vantagem do software livre.
Quando você troca o SO do seu computador para Linux, não está mudando apenas o componente que gerencia seu hardware. Você está optando pelo software livre e por tudo o que ele traz. É assim que o Linux foi concebido, e não para substituir o Windows em todas as suas funções e fazer tudo igual. O objetivo é muito mais além.
O Linux foi concebido por hackers, de programadores para programadores. Esta característica será levada para sempre no sistema, como ao precisar compilar muitos softwares antes de utilizá-los, por exemplo. Parece simples, mas excede muito as capacidades da maioria dos usuários comuns. Para usar um driver, é preciso que ele seja compilado para o kernel que está rodando na máquina. Para isso não necessárias várias ferramentas e biblioteca. Às vezes é preciso até mudar um pouco o código do driver, para lidar com alguma incompatibilidade local, mas a maioria das pessoas não sabem direito nem o que é sistema operacional e um drivers, quanto mais o que seria um kernel, bibliotecas, ferramentas de compilação, código fonte, etc.
Então, se o objetivo é usar o Linux como substituto gratuito do Windows, pense um pouco melhor, pois não é essa a idéia. As coisas não são tão simples assim. Minha opinião é que o Linux está completamente preparado para o Desktop, porém, os usuários não estão preparados para o Linux. Como diz uma conhecida citação:
“O Linux é amigável… Mas ele seleciona as amizades que faz.”
Como esse problema pode ser resolvido? Simples. Com o tempo. A criação da interação com o computador e o mundo digital em geral depende apenas da interface com os humanos. Esta interface é o sistema operacional. Daqui há algum tempo o número de pessoas que aprenderão o que é o mundo digital através das “lentes” do Linux será muito maior, então mesmo os usuários iniciantes terão um certo conhecimento sobre o sistema por estarem familiarizados com ele. Mais pessoas irão ser “iniciadas” através do Linux, e isso será natural.
O Linux é uma ferramenta poderosa para explorar a tecnologia, mas parece complicado se a maioria das pessoas exerga as coisas através das limitações dos sistemas proprietários.
É como um idioma que precisa ser aprendido para explorar o conhecimento disponível nesta forma. Para explorar o mundo digital, é preciso também aprender um idioma: o do sistema operacional. Se as pessoas começarem a aprender pelo Linux, muitos dos problemas mais comuns deixarão de existir.
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- Published:
- 06.01.07 / 11am
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